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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Inveja – grilhão que arrasta os fracassados

Inveja é tristeza diante do bem, do talento, da idade, do poder ou do sucesso do outro; nasce quando a excelência de uma pessoa arrasa com o valor da outra. A igreja cristã do século IV classificou a inveja como um dos sete pecados capitais. Santo Tomás de Aquino a tratou como pecado mortal (portanto, imperdoável) e responsabilizou a inveja por outros vícios: murmuração, detração, ódio, dissensão, alegria pela derrocada alheia. Na tradição judaica, a inveja motivou o primeiro assassinato. No Gênesis, Caim matou Abel por não tolerar que Deus preferisse a oferta do irmão à dele. Mais tarde, nas tábuas dos dez mandamentos, a inveja foi condenada na proibição de cobiçar qualquer coisa do próximo.
Inveja participa como ingrediente nas tramas da melhor literatura. E ninguém a retratou melhor do que William Shakespeare. Em Otelo, ele descreve os mecanismos que incitam ódio e ciúme a partir da inveja. Otelo é general reconhecido por seus triunfos em batalhas terrestres e marítimas. Ao assumir a posição de chefe de Estado no Chipre, nomeia Cássio como braço direito. Mas suscita a inveja de Iago, que passa a conspirar contra ele. As desavenças que nascem daí – e que caracterizam as tragédias shakespeareanas  - são horrorosas.
Iago destila uma suspeita mortal em Otelo, com o intuito de levá-lo a acreditar que sua mulher, Desdêmona, o trai com o tenente Cássio. O conflito entre o amor, que o general nutre pela mulher e a desconfiança incitada por Iago faz Otelo despencar da posição de herói. Debilitado psicologicamente, mata a amada, sufocando-a com travesseiros. Declarado assassino, Otelo  perde o posto de general e é sentenciado à prisão. Sem saída, acaba por tirar a própria vida com um punhal.
José Ingenieros declara que
a inveja é uma adoração dos homens pelas sombras, do mérito pela mediocridade. É o rubor na face sonoramente esbofeteada pela glória alheia. É o grilhão que arrasta os fracassados. É a amargura que toma conta do paladar dos impotentes. É um venenoso humor que emana das feridas abertas pelo desengano da insignificância própria. Mesmo não querendo, padecem desse mal, cedo ou tarde, aqueles que vivem escravos da vaidade; desfilam pálidos de angústia, torvos, envergonhados de sua própria tristeza, sem suspeitar que seu ladrido envolve uma consagração inequívoca do mérito alheio. A inextinguível hostilidade dos néscios foi sempre o pedestal de um monumento”.
Inveja é pior que ódio. O ódio não se contém e, devido à fúria, sempre faz alguma coisa. A inveja por sua vez, aceita manter-se quieta; covarde, contenta-se com as sombras. Para semear suspeita, a inveja precisa se mover sob o cobertor das trevas, feito ratazana no esgoto. O invejoso deseja que todos os outros desacreditem da grandeza humana. Revolve lama para que as pessoas não notem  seu nanismo interior. Também se esconde em sepulcros caiados para iludir e semear dúvida. Ingeniero afirma que o invejoso sem coragem para ser assassino, resigna-se a ser vil.
No filme Amadeus, Salieri não admite a genialidade de Mozart. Inconformado, precisa demonizar o homem que admira. Ele tenta diminuir o talento extraordinário de Amadeus, procurando convencer as demais pessoas de seu caráter desprezível. Salieri não se inquieta com o jeito debochado de Mozart, ele detesta a capacidade extraordinária que ele tem de compor. E se pergunta porque não consegue transformar o próprio moralismo em genialidade. Depois de tentar estigmatizá-lo como um nada, parte para destruí-lo. Salieri, porém, não reúne coragem sequer de agir como algoz. Como hiena, aguarda que outros predadores abatam a presa para depois festejar em cima da carcaça.
Ingenieros diz que a psicologia da inveja pode vir sintetizada na fábula do sapo, parábola digna de constar nos livros infantis.
Um ventrudo sapo grasnava em seu pântano quando viu resplandecer no mais alto de uma pedra um vaga-lume. Pensou que nenhum ser teria direito de luzir qualidades que ele mesmo não possuiria jamais. Mortificado pela sua própria impotência, saltou em direção a ele e o encobriu com seu ventre gelado. O inocente vaga-lume ousou perguntar ao seu algoz: Por que me tapas? E o sapo, congestionado pela inveja, apenas conseguiu interrogá-lo: Por que brilhas?
Ricardo Gondim

sábado, 22 de junho de 2013

A chama não tem pavio

Mais do que oferecer respostas às perguntas, Jesus respondia aos corações. Ele sabia que por trás de um cego de nascença estava a angústia a respeito das eventuais maldições divinas; nas entrelinhas da pergunta a respeito do divórcio, a sugestão de que tanto o legalismo quanto a licenciosidade são igualmente destrutivos; na possibilidade do apredrejamento da mulher flagrada em adultério, o ocultamento de uma injustiça que transcende as relações sociais.
Jesus não era ingênuo, não enxergava a realidade ao seu redor de maneira superficial, e não ficava preso aos fatos. Seu olhar e sua escuta alcançavam a alma humana que não se revela ao observador desatento. Sua ação, reação e proposição desciam aos meandros sombrios das articulações sociais, religiosas, políticas e econômicas de seu mundo, desmascaravam as artimanhas dos podres poderes, arrebentavam as correntes das diferentes escravidões, e instalavam bombas de tempo na estruturas de promoção e manutenção da morte. É urgente aprender com Jesus a ler as gentes e os tempos.
Quem observa de longe as manifestações dos últimos dias que encheram as ruas de nossas capitais com palavras de ordem e protestos, acredita que o povo reivindica apenas R$0,20 a menos na passagem do ônibus e melhorias no transporte urbano. Os mal intencionados se apressam em criticar os arruaceiros e baderneiros, e propositada ou inconscientemente, desviam a atenção para um debate absolutamente periférico – como é o caso de discutir a atuação da PM, em detrimento do aprofundamento do debate a respeito do que levou as multidões às ruas.
Não faltam manifestantes orgânicos, protestantes de fim tarde, que confundem engajamento e militância com programa legal com gente antenada numa esquina descolada, o que, de fato, dá motivos para quem quer desmerecer o movimento como coisa de gente alienada. Mas os que se deixam levar por esses tipos de comentários já foram julgados e condenados. A respeito deles já foi dito que “sua piscina está cheia de ratos e suas ideias não correspondem aos fatos”.
A verdade verdadeira é que a rua foi invadida não apenas por milhares de pessoas, mas por múltiplas ideias, que, somadas, ou melhor, multiplicadas, declaram em alto e bom som que o Brasil está amanhecendo para outro salto quântico em sua democracia e respectivas dimensões políticas, sociais e econômicas.
Ainda é cedo para dizer se o que está acontecendo é realmente algo de primeira grandeza, como a campanha pelas Diretas Já, em 1984, e o movimento dos Caras Pintadas, em 1992. Mas é fato que mais uma vez o povo está na rua. Quando isso acontece nas proporções em que estamos assistindo, mais do que a quantidade de manifestantes ou as reivindicações objetivas, o que importa mesmo é constatar o fato de que o espírito democrático se adensa e o povo dá um tapa na mesa.
A partir de então começam a aparecer novas e mais profundas propostas, são deflagrados processos de mudanças, projetos são tirados da gaveta (reformas tributária e política, quem sabe?), as leis são aperfeiçoadas, as instituições democráticas fortalecidas, a sociedade civil aprende a se organizar, os ocupantes do poder colocam as barbas de molho temendo os desdobramentos nas eleições seguintes, surgem novos atores sociais, nascem novos coletivos, são adensados e ganham fôlego os velhos movimentos, e com a chegada de novos engajados, são depurados e oxigenados os grupos que têm marchado com suas bandeiras desde sempre.
Participar de uma manifestação de rua faz nascer e crescer no peito uma paixão pelo protagonismo no estabelecimento dos rumos da sociedade, expõe os caminhantes às conversas, gritos de guerra, argumentos mais elaborados e informações mais precisas a respeito dos temas em pauta, e trazem a boa experiência de mobilização popular: repetir uma palavra de ordem para transmiti-la como uma onda que vai se espalhando até chegar às bordas da multidão; ocupar o espaço público sem violência e em busca da simpatia dos circunstantes; identificar os inimigos internos – infiltrados das forças antagônicas ao movimento ou meramente os espíritos de porco oportunistas; olhar nos olhos das forças de repressão, perder o medo dos cassetetes, e adquirir as habilidades dos que têm o velho e bom hábito de ficar “calmos em meio a tantos gases lacrimogêneos”.
Caso você esteja se aborrecendo com as interrupções do seu trajeto com barricadas, fogo e multidões, e com o barulho em volta da sua casa, vai se acostumando, “o rio de asfalto e gente” que “entorna pelas ladeiras e entope o meio fio” vai continuar fazendo curvas e canções, pois aqueles que nos fizeram homens, também se chamavam homens, e “porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos e os sonhos não envelhecem”.
Ed René Kivitz

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Triunfar não é vencer e sim perseverar

Ricardo Gondim
Ao vencedor darei o direito de sentar-se comigo em meu trono, assim como eu também venci e sentei-me com meu Pai em seu trono. Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas
Apocalipse 3.21
Meus braços já não suportavam mais. Eu buscava ar como um afogado em seu desespero final. No treino de natação, o vai e vem da cabeça, o afundar e emergir para buscar fôlego se torna um estertor. Eu treinava para uma competição próxima e precisava intensificar os exercícios. Acontece que naquela tarde, estava exausto. Nos tiros, o percurso da piscina deve ser vencido a toda velocidade – eles visam aumentar a capacidade dos pulmões de suprir os músculos de oxigênio. Já havíamos dado uns oito tiros, em quase meia hora de suplício. Resolvi desistir. Enquanto alternava as braçadas, prometi a mim mesmo que logo que tocasse a borda da piscina avisaria ao técnico que iria embora. Decididamente, eu não aguentava mais. “Cheguei no meu limite”, repeti ofegante, com a cara enfiada na água.
Assim que alcancei a borda, gritei: “Vou parar agora!” Sem demonstrar piedade alguma, meu técnico respondeu, virando as costas: Nesta hora os medíocres desistem! Senti-me um lixo. Resolvi buscar forças onde não tinha e voltei ao treino. O técnico – que por acaso também se chamava Ricardo -ensinava uma lição que perdurou comigo todos esses anos. Hoje sei: se existe algum prêmio em existir, ele pertence aos que não desistem. Meu conceito de vencedor consiste em apenas permanecer na lida.
Existem inúmeros textos na Bíblia hebraica e no Testamento cristão que exortam a não desistir. Os versículos prometem galardão aos que, perseverando, seguem, mesmo que jamais cruzem a linha de chegada. Projetos e sonhos acabam-se porque as pessoas desistem antes de tentarem o próximo passo. Entregam os pontos ao aceitarem que as forças se esgotaram. Alguns largam casamentos, filhos, pais, comunidades de fé, por imaginarem não possuírem os recursos necessários para seguir adiante. Outros abandonam sonhos, ideais, metas e pior, a própria vida, por se considerarem fracassados.
A vida se parece com o pedalar, com o correr ou com o nadar. Depois de correr 18 maratonas, atesto: viver é uma jornada que, na maioria das vezes, parece impossível. Na vida, percalços acontecem inesperados. Parceiros de caminhada nem sempre se mostram dignos de confiança. A existência, contudo, só pede que não desistamos. O relato bíblico é precioso por narrar o testemunho de personagens que insistiram apesar das circunstâncias. Ao vê-los, os fracos revigoram, os desanimados se entusiasmam, os caídos se levantam. A Bíblia avisa que desistir por mero comodismo é atributo dos tímidos – e os tímidos não entrarão no Reino.
Os que  se acham sem forças devem tentar mais uma braçada, mais uma pedalada ou mais um passo. Por que não tentar o diálogo só mais uma vez? Por que não caminhar só mais uma milha? Por que não dizer para si mesmo:  eu não vou parar na hora em que os medíocres desistem.

sábado, 8 de junho de 2013

Arriscar é preciso

Quem deseja viver não adia. O imponderável se intromete na vida, as contingências não escolhem justos ou injustos. Como nas patas do gato, as unhas do destino se alongam, querendo arranhar o curso da história. O imprevisto às vezes acontece peçonhento e estraga projetos queridos sem qualquer consideração. A vida requer prontidão de antecipar-se ao imponderável. – antes da dor, o beijo; antes do adeus, o abraço; antes da solidão, a conversa. O agora é estrela cadente, asteróide nômade. Cada instante fugitivo precisa valer uma eternidade. O já não passa de um átimo, fenda impermanente entre oainda não e o que já se foi.
Quem busca viver não caminha sob o jugo do medo. Arriscar é preciso. Em cada decisão há perigo – decidir é vulnerabilizar-se. Nos relacionamentos há exposição e no amar, deixar-se à mercê do outro. A ferida da decepção dói menos do que o desterro. Amantes carregam cicatrizes. Os pequenos acenos de felicidade acontecem nos que se atrevem a caminhar sem blindagem, nos que arrancaram o elmo e  jogam fora o escudo.  As clausuras são tristes, elas não têm acesso ao olhar de quem suplica afeto.
Quem almeja viver não se mantém ansioso. A salvação mora no sossego. O possível, nem sempre o melhor, só vira matéria-prima do contentamento em corações calmos. A alma implora por descanso. O corpo avisa que o desespero de desejar mais e mais produz descargas hormonais adoecedoras. É necessário dar um passo de cada vez e esperar pelo amanhã. Ao desistir dos atalhos, aprendem-se processos relacionais. Os apressados, que tentam se antecipar o sereno da madrugada, cansam logo. Tudo passa. A alteridade dos ritmos deve ser respeitada.
Quem anela viver não foge de si. Não se enfrentar põe a alma em risco – que acaba somatizando a culpa e depois o câncer. Reconhecer inadequações evita aleijões existenciais. Nos solilóquios, as transgressão perdem força de um pecado mortal. Os tropeços ensinam. As mazelas ajudam a crescer. Humildade passa a valer como coragem.
Quem suspira viver ouve, não monologa. Na habilidade de escutar o que o outro tem a dizer, valoriza outras histórias, tradições, folclores. E nessa sensibilidade coexistencial, preconceitos, discriminações, rótulos, estigmas, perdem força. Os absurdos cometidos em nome de nacionalismo, religião ou ideologia deixam de se repetir com tanta frequência.
Quem sonha viver, medita. Nas conchas que a maré triturou e que pavimentam a praia, contempla os milênios que já passaram. No ócio do leão, feliz com a prole bem alimentada, vê a alegria da desafobação. O sol que se agacha no lusco fusco revela uma grandeza discreta. É preciso vagar para notar nas entrelinhas da poesia, o imarcescível, e na estrutura da prosa, o gênio do autor. Meditar é fechar os olhos para que violinos, gaitas, trompetes, pianos e realejos cheguem ao coração.
Para viver, poucas coisas são necessárias: amigos que nos façam rir – mas que não nos abandonam quando choramos; companheiros que não têm medo de falar a verdade – mas que se mostrem prontos para nos levantar na hora da queda.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A bondade de um deus que infantiliza


 José Maria Mardones[1], no blog Sóstenes Lima
O deus que faz milagres, que responde à necessidade humana corrigindo sua criação, tem, além disso, outro inconveniente: é um deus de menores de idade; esse deus infantiliza. Esse deus é o oposto daquele que dizíamos que se retira de cena para deixar que o mundo e o ser humano adquiram sua autonomia e possam sustentar-se sobre si mesmos. Em vez de querer filhos adultos, esse deus os quer bebês. A presumida bondade desse deus não se compadece com o ser humano livre, responsável, dotado de capacidades para enfrentar os problemas, as dificuldade, os desafios. Em vez de pedir que deus nos acompanhe para que a dor ou o problema não nos desumanize, pedimos-lhe que nos substitua e resolva nossos problemas. O resultado é a menoridade. Contra esse deus há um refrão popular mexicano que vem bem a propósito: “Deus não cumpre caprichos nem endireita encurvados”. Como dizia com humor um amigo: “Deus dá a água, porém não a canaliza”.
Eu não resisto à tentação de transcrever um parágrafo de um bom teólogo espanhol, J. I. González Faus, sobre o tema:
A pergunta é se Deus é pai somente de crianças pequenas, filhos menores de idade ou de adultos e livres. Para a criança, seus pais são a solução, a lei, a fonte de castigos e prêmios, e, com tudo isso, também uma dificuldade para sua liberdade. Para um filho adulto, quando a relação filial foi positiva (situação bem rara hoje), os pais são ponto de referência decisiva, e a vida do filho é fonte de interesse para os pais; a decisão, porém, sobre ela está em suas próprias mãos e não nas mãos dos pais.
O teólogo Dietrich Bonhoeffer, executado por participar em um complô contra Hitler, já dizia que o homem atual não tolera um deus tapa-buracos. A idade adulta de um homem atual não aceita um deus panaceia. E como, além disso, cada vez mais esse homem tem a possibilidade de solucionar por si mesmo inúmeros problemas funcionais, esse deus vai tendo cada vez menos espaço. O deus tampão é um deus que, a cada dia, ocupa menor espaço nesse mundo.
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[1]Texto extraído de: Mardones, José María. Matar nossos deuses: em que deus acreditar? São Paulo: Ave-Maria, 2009. p. 70-71.

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