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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Um Deus que sofre

d René Kivitz
O relacionamento entre Deus e a pessoa – raça humana, baseado no paradigma salvação e danação – ir para o céu ou para o inferno, pode ser interpretado pelo menos de duas maneiras. A maneira mais tradicional foi bem caricaturada pelo meu amigo Ricardo Gondim em sua “metáfora da festa”, que apresenta um Deus furioso dizendo à raça humana algo mais ou menos assim: “Vocês estragaram a minha festa, e eu vou estragar a festa de vocês. Sairei atrás de vocês com um chicote em punho, ferindo de morte todos os que se rebelaram contra mim e mostrarei quem tem a autoridade e o poder no mundo. Pouparei alguns poucos para dar ao universo um vislumbre da minha misericórdia, bondade e graça, e não terei piedade do restante da raça, que amargará no inferno, por toda a eternidade, a escolha errada que fez ao abandonar a minha festa”. Essa descrição tradicional, que chamo de “paradigma moral”, compreende o pecado como um ato de desobediência que desperta a ira de Deus.
Mas há outra maneira de perceber a relação entre Deus e a pessoa humana, que chamo “paradigma ontológico”. A metáfora do corpo pode ajudar. Imagine que Deus e a raça humana são uma unidade em que Cristo é o/a cabeça e a raça humana é o corpo. Imagine também que cada membro do corpo tem um cérebro, e que, portanto, a harmonia do corpo depende do alinhamento de todos os pequenos cérebros (dos membros) com o grande cérebro (do/da cabeça).
Caso o cérebro do braço direito se rebele e comece a esbofetear o rosto, isso seria uma rebelião moral. Mas se o cérebro do braço direito reivindicasse ser amputado do corpo para viver de maneira autônoma, isso seria uma rebelião ontológica: uma pretensão de viver como ser auto suficiente, à parte do corpo, rompendo a unidade original do corpo e gerando, então, dois seres.
O grande cérebro diria ao braço: “Você não conseguirá sobreviver, você não tem vida em si mesmo, sua vida depende de estar no corpo”. Mas o braço insistente se amputaria do corpo e, ao debater-se no chão com energia residual, imaginaria ainda estar vivo, mesmo separado do corpo. Até que morresse. Nessa metáfora (quase grotesca, desculpe), Deus não estaria ocupado em punir, destruir ou condenar o braço rebelde, mas faria todo o possível para reimplantar o braço no corpo.
A “metáfora da festa”, mais popular, é bem simbolizada no famoso sermão de Jonathan Edwards, no movimento puritano da Inglaterra do século XVI, intitulado: “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. Alguém precisa oferecer outro sermão, que bem poderia receber como título: “Pecadores nas mãos de um Deus ferido de amor”. Nele estaria um Deus que sofre ao perceber suas criaturas se rebelando contra o amor, a verdade, a compaixão, a justiça e a solidariedade, por exemplo, e ferindo-se umas às outras.
Deus seria apresentado, nas palavras de Jesus, como Aquele que “não apagará o pavio que fumega; não esmagará a cana trilhada”, isto é, “não pisaria no braço que se debate no chão. Os pecadores seriam expostos não ao Deus que tem nas mãos um chicote e espuma o ódio transbordando de sua boca, mas um Deus com lágrimas nos olhos, caminhando entre os homens com laços de amor, sussurrando nas praças: “Com amor eterno eu te amo e com misericórdia te chamo”

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Por que eu nunca me converteria?

Se alguns frequentassem determinadas igrejas eles jamais se converteriam ao cristianismo. Em certas instituições religiosas há desprezo pelo pensar. Os que sentem necessidade de saber o porquê das coisas e rejeitam a possibilidade de se sentirem indoutrinados, goela abaixo, sem que tenham a oportunidade de argumentar, criam repulsa ao fenônemo religioso que se alastra pelo Brasil. Muitos não se converteriam no ambiente que diz: Creia porque estou dizendo; não especule, não questione, aceite apenas. Um lugar onde se exige obediência cega, onde é proibido o exercício do bom senso, pode crescer em membresia, ser bem sucedido financeiramente e sofrer, inclusive, cooptação das forças políticas, mas jamais pode considerar-se legitimamente evangélico. Se você foi a uma dessas igrejas e não se converteu, parabéns. Você tem toda razão de reagir como reagiu. Eu também não me converteria.
Igreja que apequena debate, que se volta para questiúnculas e enfatiza pormenores irrelevantes do tipomulher deve usar cabelo comprido ou curto? pode pintar as unhas com esmalte vermelho, azul ou de cor nenhuma? tem permissão de usar calças compridas? Além do debate em si ser ridículo,  o mundo nunca mudará através das rédeas curtas desse legalismo coercitivo, dessa demagogia farisaica ou dessa piedade fundamentalista. E se existe um Deus preocupado com tão intrincada rede de pode-não-pode,  melhor mesmo nem se aproximar dele. Como imaginar Jesus morrendo na cruz, e os mártires da igreja adubando com seu sangue o solo de Roma para que a pauta mais relevante dos seguidores de Jesus fosse essa?
Converter-se à fé se tornou crescentemente complicado nos ambientes piegas, das frases prontas, dos chavões sovados e reciclados que jamais favorecem a experiência numinosa do sagrado – na melhor das hipóteses, produzem alucinação.
A pressão do mercado apressa os pastores na busca por projeção. Esse anseio gera comunidades simplistas. A complexidade da vida, com todos as implicações que as escolhas trazem, não comportam respostas simplistas. Um jargão preocupante se difundiu entre os neopentecostais: Está amarrado em nome de Jesus! Essa amarração pretendia conter desde as investidas de Lúcifer às situações corriqueiras que nos afligem como gripe, trânsito engarrafado e problemas na justiça. (todavia, alguns divulgadores da frase não conseguiram evitar a cadeia)
Uma pitada do que acorre na enorme maioria das igrejas que se pretendem evangélicas dá ideia do grau de rejeição que elas podem gerar:
Todos a uma só voz digam: Amém.
Foi fraco ou não ouvi direito? Quero um sonoro Amém.
Todos, mais alto e pausado para afugentar o diabo, gritem Gloria a Deus.
Vou orar para que Deus coloque um círculo de anjos num raio de cinco quilômetros e o diabo não vai se aproximar.
Diga para quem está do seu lado: o ambiente está limpo, agora podemos louvar a Deus.
Evangelho é simples sem carecer desses artifícios simplistas e toscos.
Ora, quem se sente alegre não precisa gritar para potencializar sua felicidade; e o triste não mudará seu estado melancólico por meio de catarse temporária. Culto a Deus não depende de que todas as pessoas sorriam. Não há erro em estar abatido. Higienizar o ambiente para que o diabo não perturbe é tão medieval que chega a constranger. Essas técnicas de manipulação de massas se evidenciam em cadalouvorzão, em cada conferência profética em cada congresso pentecostal. Tal suspensão temporária do senso crítico causa espécie por vulnerabilizar o povo a inescrupulosos mercadejadores do sagrado. Em muitos ajuntamentos, o pobre é extorquido até o último centavo do que possui nos bolsos ou na conta bancária. O resultado é que o Brasil já tem líderes de igrejas donos de aviões a jato, bancos, redes de rádio e televisão; alguns com cacife para eleger senadores, negociar comissões no Congresso e apontar o candidato à vice presidência de República. Nesse embalo, o projeto teocrático deixa de parecer impossível e, claro, preocupa.
A pergunta é inevitável: Então, por quais cargas d’água você se converteu e por que eu deveria me converter?
Converti-me porque a mensagem que me apresentaram soou racional e lógica o suficiente para satisfazer o meu intelecto e poderosa espiritualmente para impactar a minha vida. Eu cri invadido pela Graça. O Evangelho também indicou o caminho para algumas perguntas que eu já guardava: Deus? Bem? Maldade? Vida? Quem sou eu? Por que estou aqui? 
Se na filosofia naturalista e no cientifismo moderno, eu era apenas um acidente cósmico, se no sistema oriental hindu e budista, mera emanação do todo divino – panteísmo – e se  no espiritismo kardecista, espírito aprisionado a um corpo, cumprindo a lei do karma, a mensagem de Jesus me soou contundente, bonita e nobre: Eu sou a imagem de Deus que é amor. Ele me chamou de amigo, irmão, filho.
A resposta cristã para estupros, tráfico de drogas, clínicas psiquiátricas abarrotadas, embora não seja uniforme, mas cheia de controversias, me bastou. Quanto mais me aprofundei nas questões da justiça e da denúncia do pecado sistêmico que perpetua a miséria, eu vi que o número de opiniões e era proporcional ao número de denominações e escolas teológica. Os apontamentos cristãos para a solução do maior de todos os enígmas: Por que sofre o justo? eram conflitantes. Contudo, nesse emaranhado de argumentos a mensagem do Sermão do Monte me abalou. As palavras ali registradas me pareceram as mais humanas e mais desafiadoras que eu lera. Se no conceito oriental o mal e o bem se fundem numa só realidade, se no conceito espírita o mal se liga ao aperfeiçoamento, no que entendi do ensino de Jesus, o mal extrapola todas as abordagens. Ele tem que ser combatido. O mal decorre da liberdade. Fomos criados por Deus para a liberdade. Muitas vezes nos valemos dessa vocação para destruir. O mal é um acinte, jamais tolerado ou compactuado por Deus que interpela, sem cessar, homens e mulheres para enfrentarem todas as formas de antivida como suas mãos, pés e boca.
Deus é amor. Bondade existe no universo não como acidente, mas como intenção de um Deus eternamente amoroso e justo. João afirmou em sua epístola universal que todo aquele que ama é nascido de Deus. No amor ao pobre, não no cerimonialismo que exalta a liturgia, encontramos o rosto de Deus. No amor ao excluído, não no dogmatismo que glorifica a doutrina, somos tocados pelo divino. No amor ao estranho – o estrangeiro – não no institucionalismo, nos colocamos no caminho da verdade.
Converti-me porque tive a felicidade de ser anterior ao besteirol que se alastrou no movimento evangélico brasileiro nas últimas décadas; converti-me porque cri no Deus que amou o ser humano de tal meneira que não hesitou em continuar querendo bem mesmo diante do sacrifício de seu Unigênito – Jesus Cristo. Continuo no caminho, apesar de não ter alcançado resposta final e decisiva para todos os meus questionamentos – e isso é muito bom. Sinto-me ainda devedor ao projeto de vida que ele propôs. Continuo a desejá-lo, sabendo que nesse caminho encontro vida eterna.

sábado, 20 de julho de 2013

Recomendações amigas

Creia, você sempre encontrará pessoas mais ricas, mais bonitas, mais talentosas e mais novas do que você. Portanto, não cobice, não inveje e desista de tentar copiar a vida dos outros – possivelmente essas pessoas sequer gostem de si mesmas.
Não acredite cegamente em ninguém. O coração humano é ambíguo e, muitas vezes, paradoxal. Na alma misturam-se bondade e corrupção, grandeza e mesquinhez, ódio e consideração. Aplausos podem tornar-se gritos de “crucifica-o” numa velocidade impressionante. Bajulação pode maquiar rivalidade patológica.
Ame seus inimigos – pelo menos eles foram honestos com você. O inimigo leal merece mais respeito do que o amigo desleal.
Cuidado, não fale demais. A sabedoria milenar ensina que como maçã de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita com prudência; se exceder, nunca hesite voltar atrás e admitir que falou bobagem.
Não se desgaste, gerindo apenas o caráter. Uma biografia depende também da reputação. Caráter tem a ver com valores e reputação, com o que os outros sabem – e comentam – a respeito de cada um. Todavia, o caráter corrige possíveis distorções na reputação, mas a reputação jamais corrige o caráter.
Prefira a discrição. Buscar fama, aplauso ou proeminência tem um componente luciferiano. Nunca queira aparecer a qualquer custo. Muitos não cogitam, a fama vulnerabiliza. Quanto mais exposto, mais suscetível de se ferir nas pedras arremessadas pelos medíocres. Todos têm telhado de vidro. Os discretos se submetem ao juízo de Deus – que é misericordioso -, mas a popularidade favorece o juízo humano – muitas vezes inclemente.
Respeite o perigo do dinheiro. A riqueza não é um poder neutro. Jesus tratou a riqueza como uma divindade chamada Mamon – um ídolo pagão. Ninguém está isento de esforçar-se para manter o dinheiro humilhado – quem titubear, perde a alma.
Não tenha medo de duvidar. Crer é humano e duvidar, divino. Somente os tolos não questionam. Dúvida não é sinônimo de incredulidade. Mente quem diz nunca ter duvidado. Procede do próprio Deus a ordem: Venha, pode me arguir.
Não se flagele ao errar. O erro faz parte dos processos pedagógicos – procure tão somente aprender e amadurecer com os equívocos.
Pare de levar-se tanto a sério. Ria de si mesmo e seja prudente ao zombar das tontices alheias. Ninguém é totalmente normal. Cada um precisa talhar a própria senda, mesmo que seja necessário sulcar a pedra.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Um convite à desilusão

Retirado do site:http://atrilha.blogspot.com.br/
Eventualmente surge alguém com a cara azeda me dizendo que aquele livro que escrevi é contra a igreja. O sujeito resmunga um pouco, fala sobre tradição, fala que não é possível viver qualquer coisa comunitária que não se torne uma instituição. E sai ofendido com qualquer resposta que eu tente formular. Acho engraçado, porque o livro não é contra igreja nenhuma, nem as entre aspas. A intenção do texto nunca foi lutar contra as igrejas até que todas fechem suas portas. Nunca foi uma cruzada contra coisa alguma. A única coisa que se propõe ali é que tiremos a venda dos olhos, demos nomes aos bois e paremos de nos iludir mutuamente dentro de qualquer que seja o modelo de igreja que se ofereça. É um convite à desilusão.
“Conhecereis a verdade e ela vos liertará” é uma forma diversa de dizer:pare de se iludir e encare a vida como ela é. Será mais fácil seguir os passos de Jesus se tudo for colocado às claras.
Tendo sido esclarecido de uma vez por todas que igreja é a partir de dois ou três, que não exige hierarquia nenhuma, nem lugar, nem data, nem liturgia; que é guiada pelo vento, que é livre e selvagem; que está debaixo tão somente do espírito de Cristo e nunca, jamais, em hipótese alguma, submissa à algum líder, alguém que a cubra espiritualmente, ou que lhe valide, ou que lhe dite as regras, ou que lhe represente; que não exige ministérios formais, nem líderes de ministérios, nem reuniões dominicais; que não depende de clero, nem de pastores formados e ordenados em cerimônia formal com imposição das mãos de outros pastores formados e ordenados; que não impõe sobre ninguém o recolhimento de dízimos para si, nem de ofertas, nem de primícias ou o que quer que seja, mas que simplesmente incentiva a generosidade e a partilha fundamentada unicamente no amor; que igreja nenhuma tem autoridade sobre a vida de ninguém, muito menos o poder de excluir alguém da comunhão com Cristo, da ceia, ou do céu, etcétera, etcétera, etcétera.
Tendo tudo isso ficado claro e evidente (e o novo testamento deixa isso claro e evidente) não haverá enfim impedimento algum para que as instituições se formem com suas hierarquias, cargos, normas, estatutos e liturgias. E cada um poderá optar em filiar-se à essa ou aquela instituição ciente de que terá de se submeter a algumas regras impostas pelos regimentos internos. E saberá sempre e sem sombra de dúvida que essas normas são circunstanciais, e que a igreja de Jesus não tem nada a ver com nenhuma delas, ainda que naquela hora, lugar e circunstância, elas façam bem àqueles que ali se reúnem. Sim, sempre que dois ou três se reúnem haverá de se instituir algo entre eles. Tudo bem. Desde que isso jamais predomine sobre a essência, que é o amor e a liberdade. Assim se saberá que em tudo isso, no horários estabelecidos e nas normas e ritos habituais, poderá sempre haver encontros humanos na presença de Cristo e, portanto, poderá haver igreja reunida. Tanto quanto em bares, quartos, praças, salas, becos escuros e sujos, quintais, montanhas, escritórios e bocas de fumo.
O espírito de Cristo é livre e absolutamente desprovido de preconceitos. É o espírito do amor, do perdão, da reconciliação, do abraço, do bem, do serviço humilde em favor do outro. E por onde esse espírito passe, onde sopre, onde pouse, se houverem dois ou três, seja lá quais forem as roupas que usem, seus pecados egressos ou futuros, suas neuroses, seus vícios, suas liturgias, seus estatutos e atas, ou sua profissão de fé, ali haverá igreja.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cristianismo abstrato

abstrato adj. que não se prende à representação da realidade tangível. Em outras palavras: abstarto é aquilo que não se pega, não se vê, e não tem cheiro nem gosto.
1. Cristianismo abstrato é aquele de quem acredita nas realidades espirituais mas não interage com elas. Por exemplo, acreditar em Deus pode ser o mesmo que acreditar na existência de Barak Obama sem nunca ter apertado sua mão, ou na existência da Austrália e no Amazonas sem nunca ter visitado o país ou navegado as águas do rio. Isto é, “acreditar na existência de” é diferente de “se relacionar com”. Quem acredita na existência de Deus ,mas não se deixa afetar por Ele, não tem vantagem alguma sobre o diabo, que também acredita que Deus existe (Tiago 2.19).
2. Cristianismo abstrato é aquele basedao em ritualismo litúrgico, sem afeto: “Esse povo faz um grande show, dizendo as coisas certas, mas o coração deles não está nem aí para o que dizem. Fazem de conta que me adoram, mas é tudo encenação”, reclama Deus pela boca do profeta Isaías (29.13 – A Mensagem) – espiritualidade sem lágrimas, culto sem paixão, devoção mecânica, rituais automatizados e bailado de bonecos.
3. Cristianismo abstrato é aquele onde as convicções doutrinais têm primazia sobre a prática da generosidade. A experiência de fé dogmática arrebata o fiel para o mundo das ideias, onde não existe corpo, carne e sangue, não existem pessoas, apenas grandes cérebros sem qualquer capacidade de amar. Gasta-se muito tempo discutindo se o teísmo é aberto ou fechado, e, conclusões feitas, surgem os julgamentos e as agressões pessoais que negligenciam a generosidade, a fraternidade, e a mínima educação e o respeito que devemos uns aos outros, todos esquecidos de que “o conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica”, ou que “o coração humilde pode nos ajudar muito mais do que a mente orgulhosa” (1Coríntios 8.1 – A Mensagem).
4. Cristianismo abstrato é aquele que supervaloriza o moralismo em detrimento do engajamento social. O conceito de vida piedosa fica restrito aos pecados íntimos, notadamente relacionados com sexo, considerando os pecados estruturais e sociais, como a pobreza, a injustiça e a corrupção, coisa de menor importância. Os moralistas se escandalizam mais facilmente com homossexuais andando de mãos dadas na Avenida Paulista do que com mendigos embriagados estirados nas calçadas.
5. Cristianismo abstrato é aquele que proclama a expectativa do céu sem a consequente convocação para a responsabilidade histórica. A utopia do reino de Deus, que deveria ser inspiração para o cuidado da criação de Deus é transformado em argumento de fuga escatológica: “já que o mundo vai acabar mesmo, e vamos para o novo céu e a nova terra, que se dane o leontopithecus rosalia”.
6. Cristianismo abstrato é aquele que se relaciona com o mundo dos espíritos sem a contrapartida da participação no mundo dos homens. Meu amigo tinha uma carranca do folclore peruano em seu gabinete pastoral. Alguém entrou na sala e disse que aquilo era coisa do diabo e deveria ser destruída. O pastor perguntou, “em quem você votou na última eleição?”. Após a resposta, meu amigo concluiu, “Não adianta nada amarrar o diabo nas religiões celestiais e deixá-lo solto aqui em baixo”. Risos.
7. Cristianismo abstrato é aquele onde a religião está separada da vida. O mundo é dividido entre religioso e secular: de um lado ficam os santos redimidos pelo sangue do Cordeiro e do outro os pagãos que marcham céleres para o inferno. A igreja deixa de ser sal da terra e passa a ser “sal no saleiro”.
8. Cristianismo abstrato é aquele que se sustenta em clichês a respeito de como a vida deve ser sem a coragem para encarar a vida como ela é. O elevado padrão ético do evangelho não pode desconsiderar a realidade concreta das pessoas e das comunidades cristãs, que convivem com pedófilos, corruptos, abusadores, gente dissimulada e mal caráter de todo tipo e práticas imorais de toda sorte. Quem proclama o evangelho não pode brincar de “tapar o sol com a peneira”.
9. Cristianismo abstrato é aquele fundamentado no “eu” sem “nós”. Tem gente que confunde pessoalidade (O Senhor é o meu pastor) com individualismo (O pão é nosso, não apenas meu). O privatismo egocêntrico prevalece sobre a comunhão solidária, e todo mundo tenta se relacionar com Deus enquanto olha apenas para o próprio umbigo.
10. Cristianismo abstrato é aquele onde a religião é à la carte, sem sujeição à autoridade da revelação de Deus, que conhecemos como Bíblia. Quando cada um escolhe o que crer, de acordo com sua própria lógica e suposto bom senso, a mensagem cristã acaba sendo transformada num mix barato de folclore popular, filosofia em gotas, misticismo pagão e auto-ajuda espiritualista.
11. Cristianismo abstrato é aquele onde prevalecem as questões de foro íntimo sem satisfações comunitárias. Uma fé sem dimensões públicas, com ênfase exagerada em privacidade e preservação da intimidade, negligencia o fato de que “somos membros uns dos outros, e quando um membro do corpo sofre, todos os outros sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele” (1Coríntios 12.26).
12. Cristianismo abstrato é aquele onde existe carisma sem caráter. Muita profecia, muito exorcismo em nome de Jesus, sem submissão à vontade de Deus. Muita lingua estranha que nem mesmo o Espírito Santo entende. No dia do juízo, muita gente cheia de carismas vai se espantar quando ouvir Jesus dizer, “Tudo o que vocês fizeram foi me usar para virar celebridades. Fora daqui” (Mateus 7.23 – A Mensagem).
13. Cristianismo abstrato é aquele tem um Deus de invocação e outros muitos de devoção. Tem muita gente que invoca o Deus é pai de nosso senhor Jesus Cristo em suas orações, mas toma decisões no dia-a-dia e organiza a vida ao redor do dinheiro, da família, de um romance, da carreira profissional ou de qualquer outra pseudo sutil divindade idolátrica.
14. Cristianismo abstrato é aquele de quem ora “vem nós tudo, ao vosso reino nada” (ser servido versus servir). As pessoas ouviram que “Jesus Cristo é o Senhor” e acreditaram que nesse caso ele pode fazer tudo por elas, em vez de concluírem o óbvio, a saber, que elas devem fazer tudo por Jesus.
15. Cristianismo abstrato é aquele que se contenta com “amor” a Deus sem amor ao próximo, esquecido de que “ver a face do irmão é como contemplar a face de Deus” (Gênesis 33.10), ou quem sabe, que a única maneira de contemplar a face de Deus é contemplando a face do irmão, pois para enxergar o Deus que não se vê, é preciso enxergar o irmão que está bem diante dos olhos (1João 4.20).
Ed René Kivitz

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Inveja – grilhão que arrasta os fracassados

Inveja é tristeza diante do bem, do talento, da idade, do poder ou do sucesso do outro; nasce quando a excelência de uma pessoa arrasa com o valor da outra. A igreja cristã do século IV classificou a inveja como um dos sete pecados capitais. Santo Tomás de Aquino a tratou como pecado mortal (portanto, imperdoável) e responsabilizou a inveja por outros vícios: murmuração, detração, ódio, dissensão, alegria pela derrocada alheia. Na tradição judaica, a inveja motivou o primeiro assassinato. No Gênesis, Caim matou Abel por não tolerar que Deus preferisse a oferta do irmão à dele. Mais tarde, nas tábuas dos dez mandamentos, a inveja foi condenada na proibição de cobiçar qualquer coisa do próximo.
Inveja participa como ingrediente nas tramas da melhor literatura. E ninguém a retratou melhor do que William Shakespeare. Em Otelo, ele descreve os mecanismos que incitam ódio e ciúme a partir da inveja. Otelo é general reconhecido por seus triunfos em batalhas terrestres e marítimas. Ao assumir a posição de chefe de Estado no Chipre, nomeia Cássio como braço direito. Mas suscita a inveja de Iago, que passa a conspirar contra ele. As desavenças que nascem daí – e que caracterizam as tragédias shakespeareanas  - são horrorosas.
Iago destila uma suspeita mortal em Otelo, com o intuito de levá-lo a acreditar que sua mulher, Desdêmona, o trai com o tenente Cássio. O conflito entre o amor, que o general nutre pela mulher e a desconfiança incitada por Iago faz Otelo despencar da posição de herói. Debilitado psicologicamente, mata a amada, sufocando-a com travesseiros. Declarado assassino, Otelo  perde o posto de general e é sentenciado à prisão. Sem saída, acaba por tirar a própria vida com um punhal.
José Ingenieros declara que
a inveja é uma adoração dos homens pelas sombras, do mérito pela mediocridade. É o rubor na face sonoramente esbofeteada pela glória alheia. É o grilhão que arrasta os fracassados. É a amargura que toma conta do paladar dos impotentes. É um venenoso humor que emana das feridas abertas pelo desengano da insignificância própria. Mesmo não querendo, padecem desse mal, cedo ou tarde, aqueles que vivem escravos da vaidade; desfilam pálidos de angústia, torvos, envergonhados de sua própria tristeza, sem suspeitar que seu ladrido envolve uma consagração inequívoca do mérito alheio. A inextinguível hostilidade dos néscios foi sempre o pedestal de um monumento”.
Inveja é pior que ódio. O ódio não se contém e, devido à fúria, sempre faz alguma coisa. A inveja por sua vez, aceita manter-se quieta; covarde, contenta-se com as sombras. Para semear suspeita, a inveja precisa se mover sob o cobertor das trevas, feito ratazana no esgoto. O invejoso deseja que todos os outros desacreditem da grandeza humana. Revolve lama para que as pessoas não notem  seu nanismo interior. Também se esconde em sepulcros caiados para iludir e semear dúvida. Ingeniero afirma que o invejoso sem coragem para ser assassino, resigna-se a ser vil.
No filme Amadeus, Salieri não admite a genialidade de Mozart. Inconformado, precisa demonizar o homem que admira. Ele tenta diminuir o talento extraordinário de Amadeus, procurando convencer as demais pessoas de seu caráter desprezível. Salieri não se inquieta com o jeito debochado de Mozart, ele detesta a capacidade extraordinária que ele tem de compor. E se pergunta porque não consegue transformar o próprio moralismo em genialidade. Depois de tentar estigmatizá-lo como um nada, parte para destruí-lo. Salieri, porém, não reúne coragem sequer de agir como algoz. Como hiena, aguarda que outros predadores abatam a presa para depois festejar em cima da carcaça.
Ingenieros diz que a psicologia da inveja pode vir sintetizada na fábula do sapo, parábola digna de constar nos livros infantis.
Um ventrudo sapo grasnava em seu pântano quando viu resplandecer no mais alto de uma pedra um vaga-lume. Pensou que nenhum ser teria direito de luzir qualidades que ele mesmo não possuiria jamais. Mortificado pela sua própria impotência, saltou em direção a ele e o encobriu com seu ventre gelado. O inocente vaga-lume ousou perguntar ao seu algoz: Por que me tapas? E o sapo, congestionado pela inveja, apenas conseguiu interrogá-lo: Por que brilhas?
Ricardo Gondim

sábado, 22 de junho de 2013

A chama não tem pavio

Mais do que oferecer respostas às perguntas, Jesus respondia aos corações. Ele sabia que por trás de um cego de nascença estava a angústia a respeito das eventuais maldições divinas; nas entrelinhas da pergunta a respeito do divórcio, a sugestão de que tanto o legalismo quanto a licenciosidade são igualmente destrutivos; na possibilidade do apredrejamento da mulher flagrada em adultério, o ocultamento de uma injustiça que transcende as relações sociais.
Jesus não era ingênuo, não enxergava a realidade ao seu redor de maneira superficial, e não ficava preso aos fatos. Seu olhar e sua escuta alcançavam a alma humana que não se revela ao observador desatento. Sua ação, reação e proposição desciam aos meandros sombrios das articulações sociais, religiosas, políticas e econômicas de seu mundo, desmascaravam as artimanhas dos podres poderes, arrebentavam as correntes das diferentes escravidões, e instalavam bombas de tempo na estruturas de promoção e manutenção da morte. É urgente aprender com Jesus a ler as gentes e os tempos.
Quem observa de longe as manifestações dos últimos dias que encheram as ruas de nossas capitais com palavras de ordem e protestos, acredita que o povo reivindica apenas R$0,20 a menos na passagem do ônibus e melhorias no transporte urbano. Os mal intencionados se apressam em criticar os arruaceiros e baderneiros, e propositada ou inconscientemente, desviam a atenção para um debate absolutamente periférico – como é o caso de discutir a atuação da PM, em detrimento do aprofundamento do debate a respeito do que levou as multidões às ruas.
Não faltam manifestantes orgânicos, protestantes de fim tarde, que confundem engajamento e militância com programa legal com gente antenada numa esquina descolada, o que, de fato, dá motivos para quem quer desmerecer o movimento como coisa de gente alienada. Mas os que se deixam levar por esses tipos de comentários já foram julgados e condenados. A respeito deles já foi dito que “sua piscina está cheia de ratos e suas ideias não correspondem aos fatos”.
A verdade verdadeira é que a rua foi invadida não apenas por milhares de pessoas, mas por múltiplas ideias, que, somadas, ou melhor, multiplicadas, declaram em alto e bom som que o Brasil está amanhecendo para outro salto quântico em sua democracia e respectivas dimensões políticas, sociais e econômicas.
Ainda é cedo para dizer se o que está acontecendo é realmente algo de primeira grandeza, como a campanha pelas Diretas Já, em 1984, e o movimento dos Caras Pintadas, em 1992. Mas é fato que mais uma vez o povo está na rua. Quando isso acontece nas proporções em que estamos assistindo, mais do que a quantidade de manifestantes ou as reivindicações objetivas, o que importa mesmo é constatar o fato de que o espírito democrático se adensa e o povo dá um tapa na mesa.
A partir de então começam a aparecer novas e mais profundas propostas, são deflagrados processos de mudanças, projetos são tirados da gaveta (reformas tributária e política, quem sabe?), as leis são aperfeiçoadas, as instituições democráticas fortalecidas, a sociedade civil aprende a se organizar, os ocupantes do poder colocam as barbas de molho temendo os desdobramentos nas eleições seguintes, surgem novos atores sociais, nascem novos coletivos, são adensados e ganham fôlego os velhos movimentos, e com a chegada de novos engajados, são depurados e oxigenados os grupos que têm marchado com suas bandeiras desde sempre.
Participar de uma manifestação de rua faz nascer e crescer no peito uma paixão pelo protagonismo no estabelecimento dos rumos da sociedade, expõe os caminhantes às conversas, gritos de guerra, argumentos mais elaborados e informações mais precisas a respeito dos temas em pauta, e trazem a boa experiência de mobilização popular: repetir uma palavra de ordem para transmiti-la como uma onda que vai se espalhando até chegar às bordas da multidão; ocupar o espaço público sem violência e em busca da simpatia dos circunstantes; identificar os inimigos internos – infiltrados das forças antagônicas ao movimento ou meramente os espíritos de porco oportunistas; olhar nos olhos das forças de repressão, perder o medo dos cassetetes, e adquirir as habilidades dos que têm o velho e bom hábito de ficar “calmos em meio a tantos gases lacrimogêneos”.
Caso você esteja se aborrecendo com as interrupções do seu trajeto com barricadas, fogo e multidões, e com o barulho em volta da sua casa, vai se acostumando, “o rio de asfalto e gente” que “entorna pelas ladeiras e entope o meio fio” vai continuar fazendo curvas e canções, pois aqueles que nos fizeram homens, também se chamavam homens, e “porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos e os sonhos não envelhecem”.
Ed René Kivitz

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Triunfar não é vencer e sim perseverar

Ricardo Gondim
Ao vencedor darei o direito de sentar-se comigo em meu trono, assim como eu também venci e sentei-me com meu Pai em seu trono. Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas
Apocalipse 3.21
Meus braços já não suportavam mais. Eu buscava ar como um afogado em seu desespero final. No treino de natação, o vai e vem da cabeça, o afundar e emergir para buscar fôlego se torna um estertor. Eu treinava para uma competição próxima e precisava intensificar os exercícios. Acontece que naquela tarde, estava exausto. Nos tiros, o percurso da piscina deve ser vencido a toda velocidade – eles visam aumentar a capacidade dos pulmões de suprir os músculos de oxigênio. Já havíamos dado uns oito tiros, em quase meia hora de suplício. Resolvi desistir. Enquanto alternava as braçadas, prometi a mim mesmo que logo que tocasse a borda da piscina avisaria ao técnico que iria embora. Decididamente, eu não aguentava mais. “Cheguei no meu limite”, repeti ofegante, com a cara enfiada na água.
Assim que alcancei a borda, gritei: “Vou parar agora!” Sem demonstrar piedade alguma, meu técnico respondeu, virando as costas: Nesta hora os medíocres desistem! Senti-me um lixo. Resolvi buscar forças onde não tinha e voltei ao treino. O técnico – que por acaso também se chamava Ricardo -ensinava uma lição que perdurou comigo todos esses anos. Hoje sei: se existe algum prêmio em existir, ele pertence aos que não desistem. Meu conceito de vencedor consiste em apenas permanecer na lida.
Existem inúmeros textos na Bíblia hebraica e no Testamento cristão que exortam a não desistir. Os versículos prometem galardão aos que, perseverando, seguem, mesmo que jamais cruzem a linha de chegada. Projetos e sonhos acabam-se porque as pessoas desistem antes de tentarem o próximo passo. Entregam os pontos ao aceitarem que as forças se esgotaram. Alguns largam casamentos, filhos, pais, comunidades de fé, por imaginarem não possuírem os recursos necessários para seguir adiante. Outros abandonam sonhos, ideais, metas e pior, a própria vida, por se considerarem fracassados.
A vida se parece com o pedalar, com o correr ou com o nadar. Depois de correr 18 maratonas, atesto: viver é uma jornada que, na maioria das vezes, parece impossível. Na vida, percalços acontecem inesperados. Parceiros de caminhada nem sempre se mostram dignos de confiança. A existência, contudo, só pede que não desistamos. O relato bíblico é precioso por narrar o testemunho de personagens que insistiram apesar das circunstâncias. Ao vê-los, os fracos revigoram, os desanimados se entusiasmam, os caídos se levantam. A Bíblia avisa que desistir por mero comodismo é atributo dos tímidos – e os tímidos não entrarão no Reino.
Os que  se acham sem forças devem tentar mais uma braçada, mais uma pedalada ou mais um passo. Por que não tentar o diálogo só mais uma vez? Por que não caminhar só mais uma milha? Por que não dizer para si mesmo:  eu não vou parar na hora em que os medíocres desistem.

sábado, 8 de junho de 2013

Arriscar é preciso

Quem deseja viver não adia. O imponderável se intromete na vida, as contingências não escolhem justos ou injustos. Como nas patas do gato, as unhas do destino se alongam, querendo arranhar o curso da história. O imprevisto às vezes acontece peçonhento e estraga projetos queridos sem qualquer consideração. A vida requer prontidão de antecipar-se ao imponderável. – antes da dor, o beijo; antes do adeus, o abraço; antes da solidão, a conversa. O agora é estrela cadente, asteróide nômade. Cada instante fugitivo precisa valer uma eternidade. O já não passa de um átimo, fenda impermanente entre oainda não e o que já se foi.
Quem busca viver não caminha sob o jugo do medo. Arriscar é preciso. Em cada decisão há perigo – decidir é vulnerabilizar-se. Nos relacionamentos há exposição e no amar, deixar-se à mercê do outro. A ferida da decepção dói menos do que o desterro. Amantes carregam cicatrizes. Os pequenos acenos de felicidade acontecem nos que se atrevem a caminhar sem blindagem, nos que arrancaram o elmo e  jogam fora o escudo.  As clausuras são tristes, elas não têm acesso ao olhar de quem suplica afeto.
Quem almeja viver não se mantém ansioso. A salvação mora no sossego. O possível, nem sempre o melhor, só vira matéria-prima do contentamento em corações calmos. A alma implora por descanso. O corpo avisa que o desespero de desejar mais e mais produz descargas hormonais adoecedoras. É necessário dar um passo de cada vez e esperar pelo amanhã. Ao desistir dos atalhos, aprendem-se processos relacionais. Os apressados, que tentam se antecipar o sereno da madrugada, cansam logo. Tudo passa. A alteridade dos ritmos deve ser respeitada.
Quem anela viver não foge de si. Não se enfrentar põe a alma em risco – que acaba somatizando a culpa e depois o câncer. Reconhecer inadequações evita aleijões existenciais. Nos solilóquios, as transgressão perdem força de um pecado mortal. Os tropeços ensinam. As mazelas ajudam a crescer. Humildade passa a valer como coragem.
Quem suspira viver ouve, não monologa. Na habilidade de escutar o que o outro tem a dizer, valoriza outras histórias, tradições, folclores. E nessa sensibilidade coexistencial, preconceitos, discriminações, rótulos, estigmas, perdem força. Os absurdos cometidos em nome de nacionalismo, religião ou ideologia deixam de se repetir com tanta frequência.
Quem sonha viver, medita. Nas conchas que a maré triturou e que pavimentam a praia, contempla os milênios que já passaram. No ócio do leão, feliz com a prole bem alimentada, vê a alegria da desafobação. O sol que se agacha no lusco fusco revela uma grandeza discreta. É preciso vagar para notar nas entrelinhas da poesia, o imarcescível, e na estrutura da prosa, o gênio do autor. Meditar é fechar os olhos para que violinos, gaitas, trompetes, pianos e realejos cheguem ao coração.
Para viver, poucas coisas são necessárias: amigos que nos façam rir – mas que não nos abandonam quando choramos; companheiros que não têm medo de falar a verdade – mas que se mostrem prontos para nos levantar na hora da queda.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A bondade de um deus que infantiliza


 José Maria Mardones[1], no blog Sóstenes Lima
O deus que faz milagres, que responde à necessidade humana corrigindo sua criação, tem, além disso, outro inconveniente: é um deus de menores de idade; esse deus infantiliza. Esse deus é o oposto daquele que dizíamos que se retira de cena para deixar que o mundo e o ser humano adquiram sua autonomia e possam sustentar-se sobre si mesmos. Em vez de querer filhos adultos, esse deus os quer bebês. A presumida bondade desse deus não se compadece com o ser humano livre, responsável, dotado de capacidades para enfrentar os problemas, as dificuldade, os desafios. Em vez de pedir que deus nos acompanhe para que a dor ou o problema não nos desumanize, pedimos-lhe que nos substitua e resolva nossos problemas. O resultado é a menoridade. Contra esse deus há um refrão popular mexicano que vem bem a propósito: “Deus não cumpre caprichos nem endireita encurvados”. Como dizia com humor um amigo: “Deus dá a água, porém não a canaliza”.
Eu não resisto à tentação de transcrever um parágrafo de um bom teólogo espanhol, J. I. González Faus, sobre o tema:
A pergunta é se Deus é pai somente de crianças pequenas, filhos menores de idade ou de adultos e livres. Para a criança, seus pais são a solução, a lei, a fonte de castigos e prêmios, e, com tudo isso, também uma dificuldade para sua liberdade. Para um filho adulto, quando a relação filial foi positiva (situação bem rara hoje), os pais são ponto de referência decisiva, e a vida do filho é fonte de interesse para os pais; a decisão, porém, sobre ela está em suas próprias mãos e não nas mãos dos pais.
O teólogo Dietrich Bonhoeffer, executado por participar em um complô contra Hitler, já dizia que o homem atual não tolera um deus tapa-buracos. A idade adulta de um homem atual não aceita um deus panaceia. E como, além disso, cada vez mais esse homem tem a possibilidade de solucionar por si mesmo inúmeros problemas funcionais, esse deus vai tendo cada vez menos espaço. O deus tampão é um deus que, a cada dia, ocupa menor espaço nesse mundo.
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[1]Texto extraído de: Mardones, José María. Matar nossos deuses: em que deus acreditar? São Paulo: Ave-Maria, 2009. p. 70-71.

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