O
deus que faz milagres, que responde à necessidade humana corrigindo sua criação,
tem, além disso, outro inconveniente: é um deus de menores de idade; esse deus
infantiliza. Esse deus é o oposto daquele que dizíamos que se retira de cena
para deixar que o mundo e o ser humano adquiram sua autonomia e possam
sustentar-se sobre si mesmos. Em vez de querer filhos adultos, esse deus os
quer bebês. A presumida bondade desse deus não se compadece com o ser humano
livre, responsável, dotado de capacidades para enfrentar os problemas, as
dificuldade, os desafios. Em vez de pedir que deus nos acompanhe para que a dor
ou o problema não nos desumanize, pedimos-lhe que nos substitua e resolva
nossos problemas. O resultado é a menoridade. Contra esse deus há um refrão
popular mexicano que vem bem a propósito: “Deus não cumpre caprichos nem endireita
encurvados”. Como dizia com humor um amigo: “Deus dá a água, porém não a
canaliza”.
Eu
não resisto à tentação de transcrever um parágrafo de um bom teólogo espanhol,
J. I. González Faus, sobre o tema:
A pergunta é se Deus é pai somente de crianças pequenas, filhos
menores de idade ou de adultos e livres. Para a criança, seus pais são a
solução, a lei, a fonte de castigos e prêmios, e, com tudo isso, também uma
dificuldade para sua liberdade. Para um filho adulto, quando a relação filial
foi positiva (situação bem rara hoje), os pais são ponto de referência
decisiva, e a vida do filho é fonte de interesse para os pais; a decisão,
porém, sobre ela está em suas próprias mãos e não nas mãos dos pais.
O
teólogo Dietrich Bonhoeffer, executado por participar em um complô contra
Hitler, já dizia que o homem atual não tolera um deus tapa-buracos. A idade
adulta de um homem atual não aceita um deus panaceia. E como, além disso, cada
vez mais esse homem tem a possibilidade de solucionar por si mesmo inúmeros problemas
funcionais, esse deus vai tendo cada vez menos espaço. O deus tampão é um deus
que, a cada dia, ocupa menor espaço nesse mundo.
***
[1]Texto
extraído de: Mardones, José María. Matar nossos deuses: em que deus acreditar?
São Paulo: Ave-Maria, 2009. p. 70-71.
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